Porque ficamos Eufóricos - Ainda Manchester

Hoje, ao ler os comentários feitos em foruns de futebol por essa net fora, acerca do jogo do Manchester no Porto, em que Ronaldo marcou um golo, fui confrontado várias vezes com o comentário :

"Vocês lá sabem porque ficaram eufóricos..."

Como se ter ido receber a equipa ao aeroporto depois de um empate em Manchester tivesse sido uma atitude injustificada e desproporcionada. Achei por bem explicar o porquê de 1500 pessoas terem ido ao aeroporto esperar a equipa depois do 2-2 em Manchester:

"Mas vocês lá sabem porque ficaram eufóricos..."

Eu explico-vos, caros amigos, porque ficamos eufóricos: Mas para a explicação ser completa preciso que se recordem do Porto-Leixões, do Naval-Porto e do Arsenal-Porto. Nessa altura o Porto estava à deriva. A equipa não se encontrava naquele início já prolongado da temporada. As saídas do Quaresma, do Bosingwa e do Paulo Assunção foram um rude golpe na estrutura do Porto e o Jesualdo Ferreira vivia dias difíceis ao tentar as mais variadas soluções. Sem tempo para falhar, cada escolha era um risco, mas cada risco teimava em correr mal. O Porto cedia e voltava a ceder, chegou a estar em 8º lugar. A massa crítica aparecia em força criticando a venda dos melhores activos do clube e a forma como a mais valia dessas transferências foi investida no actual plantel, criticava-se o salário do Rodriguez, o rendimento do Lucho, a birra do Lisandro, o Sapunaru era um flop e o trinco não existia... euforia era coisa que não existia….

Devagar, as escolhas cimentaram-se: Primeiro Hulk entrou no onze, depois percebeu-se que Fucile continuaria na esquerda e que Benitez não era alternativa. Correu-se com o Pelé para Inglaterra e entregou-se o trinco ao Fernando, a equipa criava rotinas, o jogo assentava e os resultados apareciam. Primeiro mais alicerçados na garra e na vontade do que no futebol bem jogado, depois, já com Rodriguez em boa forma e com Meireles em grande, a equipa engrenou.

Chegou Janeiro e chegou Cissokho. Em Lisboa, Quique ainda era lider. A imprensa elogiava um treinador simpático e afável com os media, tão diferente dos Portugueses. Suazo ainda era melhor que Hulk, Reyes ainda era melhor que Rodriguez, Aimar ainda era melhor que Lucho e Yebda ainda era melhor que Meireles. Mas tudo ia mudar. Do Dragão, o Professor já tinha planeado o novo Porto, em ritmo crescente, organizado, metódico, ao bom estilo do Porto, a melhor forma apareceria quando mais falta fizesse, no momento das decisões.

Cissokho entra e pega de estaca, custou 300 mil euros. Mais do que ocupar uma posição em que a equipa estava carenciada, o Francês trás outra dinâmica à equipa, permitindo a Rodriguez crescer ofensivamente nesse lado. Tem 21 anos, jogava na 3ª divisão Francesa e fez 6 meses no Setubal antes de chegar ao Porto. Ninguém repara nisso. O Porto joga melhor, cada vez melhor. Em Madrid um primeiro exemplo de classe: Que exibição. Abel Resino diz na imprensa espanhola: "Nenhuma equipa em Espanha tem um ataque como o Porto, se arriscássemos mais, podíamos ser humilhados". Passe o exagero do Espanhol, a verdade é que o Porto cresce exponencialmente de jogo para jogo, respira-se confiança, sente-se o trabalho do Professor em cada jogo de Fernando, de Cissokho, de Rodrigues, de Hulk. Nota-se orgulho em Bruno Alves, em Lucho, em Meireles. Vê-se o espírito de equipa, mais forte do que nunca, unida no abraço a Helton depois de emendado o seu erro em Madrid com o segundo golo de Licha….

E chega o Man Utd. Frente ao campeão da Europa, do mundo, bicampeão inglês, equipa do melhor do mundo, o Porto mostra-se: Cissokho, Fernando, Rolando, Sapunaru, Rodriguez e Hulk são titulares. São seis jogadores novos meus amigos, seis jogadores que chegaram este ano ao Porto. Sabiam que seis jogadores são mais de metade de uma equipa de futebol ? É verdade. Mais, são seis jogadores sem experiência europeia, e com idades entre os 20 e 22 anos. Olhos nos Olhos, queixo levantado, o jogo pelo jogo, passe a passe e sem medo nenhum, o Campeão do Mundo saiu em desvantagem. Fernando, Cissokho, Sapunaru, Rodriguez e Rolando parecem ter acabado esse jogo a gritar a plenos pulmões: MAS QUEM É O MANCHESTER CARALHO ?!?!

Qual é a razão para a Euforia meus caros? É que nesse jogo, nesses 90 singelos minutos, tão pouco tempo depois do Naval- Porto, o Porto não fez só um bom resultado. Não jogou só um jogo de futebol. O Porto ganhou uma equipa: Um trinco de valor mundial, (mas alguém quer o Assunção?!?) um defesa esquerdo elegível para os "blues" (Nuno Valente ?!?!), um extremo esquerdo puro de fibra, facetado o suficiente para mudar um 4-3-3 num 4-4-2 só com um piscar de olhos do mestre Jesualdo.

Nesse jogo, o Porto não esteve só nos quartos de final da UEFA CL. O Porto deu um passo rumo ao PENTA. Ganhou uma equipa de miúdos novos, de fibra, que a partir dai são uma certeza e que farão sempre dois anos de Porto antes de serem vendidos por valores que os gigantes de Lisboa só podem sonhar que um dia pagarão por um jogador deles. A Euforia da semana passada não passou hoje a desilusão. A Euforia mantém-se viva e ansiosa porque as certezas ficaram assentes: O Porto é fortíssimo e vai crescer ainda mais. Fernando, Cissokho, Rolando, Hulk, Meireles, Rodriguez, Fucile, Sapunaru não sairão de certo do Porto para o ano. Fernando, Cissokho, Rolando, Hulk, Meireles, Rodriguez, Fucile são os melhores jogadores em Portugal a actuar nas suas posições. A euforia é por aquilo que aí vem, pelo que o Porto vai ganhar, pelo TETRA , pelo PENTA, pelo HEXA, pelo HEPTA como o que a nossa equipa de patins já ganhou, qual é o limite ?!? não há…


A Euforia é pela grande época que se avizinha. Pelo lugar anual que tenho de comprar depressa para ver ao vivo esta grande equipa com algumas das estrelas do futebol europeu do futuro, percebem caros amigos ? É que aqui no Porto, gostamos de Futebol, temos orgulho na nossa equipa que tão bem joga à bola e ansiamos a próxima época com a euforia da certeza de que a próxima participação na Liga dos Campeões tem tudo para ser melhor que esta: Seremos mais experientes, mais fortes, melhores. Vamos por certo festejar mais vitórias, melhores jogos, cheios de golos e espectáculo, em ambientes como o de hoje, com a adrenalina elevada ao máximo na esperança legítima do sucesso.

Não nos limitaremos a seguir pela televisão a exibição de uma qualquer potência estrangeira na esperança de que o seu sucesso contra os nossos rivais diminua as nossas frustações. Jogaremos sempre na certeza de que somos os melhores em Portugal. De que faremos sempre os melhores resultados de Portugal na Europa. E nem nos preocupamos se no fim, outros puderem ir à Europa graças aos nossos êxitos e nem sequer obrigado digam, porque (FODA-SE, JOGAMOS TANTO À BOLA !!!) estaremos demasiado eufóricos a festejar o nosso êxito, à espera dos nossos operários de sonhos nos aeroportos, a festejar o nosso grande futebol e a nossa grande capacidade de ano, após ano, fazermos grandes equipas. Acreditam? Acreditem, vão por mim, poderão comprovar na televisão os jogos que eu verei no estádio. E sabem porque é que verão na televisão ?

Análise do nosso campeonato.

Ponto prévio: O SL Benfica e o Sporting CP são dois grandes e mui nobres clubes. Fazem parte da história da nossa nação de um modo que vai muito para além da sua vertente de clubes de futebol. Tal como o FC Porto.

O que se passou esta época foi mais uma vez o reflexo da forma como os clubes são geridos. Os resultados desportivos de um clube de futebol são cada vez mais o resultado da soma de uma série de competências de gestão que influenciam cada vez os sucessos dos clubes no plano meramente desportivo. A estabilidade do corpo de dirigentes, a estabilidade financeira, a estabilidade da equipa técnica, a organização do departamento de comunicação (importantíssima!!!), a política de contratações (inclui o "lado negro" das relações com os empresários, também muito importante), são os factores mais importantes para que um qualquer clube possa em Portugal ser campeão. Em termos de gestão da comunicação da imprensa, por estranho que pareça, em Portugal é útil não ter 6 milhões de adeptos a quem dar notícias sobre "nada".

O Porto volta a ter o sucesso que merece porque é mais competente. Porque na soma dos predicados da sua organização, é mais sólido, mais eficiente, mais profissional. Porque cada dirigente do Porto, cada técnico, cada atleta, cada roupeito ou motorista está apenas concentrado em fazer o melhor que pode o seu trabalho. E não tem que se preocupar com mais nada, porque para o resto, estarão outros concentrados em fazer o seu melhor.

Curiosamente contudo, esta seria uma época de viragem. Seria expectável que, tendo perdido 3 jogadores nucleares, o Porto partisse para esta época com a expectativa de reconstruir a equipa e por isso criasse condições para que os seus adversários directos aproveitassem esta necessidade de renovação e um previsivel arranque inconstante para facturarem um título. Partia o Sporting à frente.

So que o Sporting não pode ser campeão em Portugal. E não será campeão tão cedo. Lamento desiludir todos os Sportinguistas que tanto respeito pela sua dedicação exemplar a um clube que sempre pautou pela sua nobre atitude, mas não se podem fazer omoletes sem ovos. O motivo pelo qual o Sporting não pode ser campeão em Portugal é o mesmo pelo qual o Sevilha, o Villareal ou o Atletico não o podem ser em Espanha. Porque com um terço do orçamento não se pode ultrapassar um concorrente. A menos que o adversário seja muito mal gerido, o que, felizmente, não é o caso.

Em todo o caso, a fantástica prestação do Sporting nas últimas três épocas tem permitido que a equipa de Alvalade supere, ano após ano, o espectro de uma crise financeira que, sem o dinheiro da liga dos campeões, seria insuportável. E há que realçar o trabalho que o Sporting faz ao nível da formação, indispensável para que a sua equipa profissional continue competitiva. Não nos podemos esquecer que os verde-brancos não podem ir buscar Hulk's ao japão para os vender por 25 milhões depois, porque não têm 5 milhões para o comprar. lembrem-se que não tiveram 2.5 milhões para o Pepe...

Quanto ao Benfica, o Glorioso não está bem. A administração Vieira consegue fazer tudo ao contrário. À parte o saneamento financeiro que efectuou no clube, cujo mérito é inegável, ao nível da gestão desportiva desta época faz tudo ao contrário. Primeiro começa por continuamente desvalorizar o sucesso dos adversários, lançando constantemente a suspeita da corrupção. A consequência desta política é a contínua desresponsabilização da(s) sua(s) equipas técnicas e de atletas. Se a culpa é da "roubalheira" nunca é do Fernando Santos, do Camacho, do Chalanna ou do Quique. Também não é do Aimar, do Balboa, do Carlos Martins, do Di Maria ou do Nuno Gomes. Ou seja, o presidente do benfica, através da sua direcção opta por dizer à sua massa associativa, que a equipa é fantástica, que os técnicos são bons, só que em Portugal não podem ser campeões por causa da "roubalheira". O problema desta política é que os adeptos de futebol são pessoas. Com cerebros. E as pessoas com cerebros conseguem pensar. Até as do benfica o fazem. Ora depois de um exercício de seis meses a ver o Benfica do Quique jogar, os adeptos do benfica conseguem concluir que a "roubalheira" foram os milhões gastos numa equipa que está prestes a perder o terceiro lugar para o Nacional.

Aos erros da direcção do benfica acresce uma politica de comunicação aberrante num clube profissional e que segue a lógica do parágrafo anterior. Comecando num director de comunicação com uma postura contrária ao que deveria apresentar, a direcção do Benfica opta contínuamente por desviar a atenção dos resultados desportivos, evitanto a todo o custo confrontar-se com as suas próprias opções. Caríssimos, lembrem-se do único campeonato perdido pelo Porto nos últimos sete anos. Sem meias medidas a direcção mudou três vezes de treinador. É assim que se faz, quando se tem a certeza que não vai funcionar, muda-se até se estabilizar. mas depois... prende-se o treinador que tem sucesso !

Claro que o Benfica é muito grande, tem muitos adeptos e um potencial único em Portugal. Só é mal gerido. tem todas as condições para ser o maior clube Português mas não é ! E cada ano que passa, vai ser menos. Cada ano sem vitórias custa adeptos, dinheiro, mística... até que um dia os adeptos deixam mesmo de se importar e aí nada a fazer. O fosso cava-se de uma forma cada vez mais acentuada e não vale a pena ter a esperança de que o Pinto da Costa um dia vá embora, porque ao nível a que a organização FC Porto está, a sua sucessão já está definida e a organização não perderá nunca o seu "modus operandi". Vêm aí dias díficeis para os rivais de Lisboa.

Não tendo perdido esta época o campeonato, num ano em que a equipa se renovou. Não sendo expectável que saiam mais do que o bruno Alves e o Lisandro do Porto para o ano...vejo muito reduzidas as hipoteses dos clubes de Lisboa impedirem o Porto de ganhar o Penta e até mesmo o Hexa. O Sporting porque não há dinheiro e sem dinheiro não se fica mais forte. O benfica porque vai ter de começar tudo de novo enquanto o Porto já não dará as abébias que deu no início desta época.

Porto rumo ao penta.